Continuar não morrendo
Amanhã completo quarenta anos. Quatro décadas. A última delas, tão desafiadora. Com três tratamentos importantes, separação, falecimento da minha mãe, perda da minha amiga de infância e a insistência da lembrança de que, para morrer, basta estar vivo. A gente comemora aniversários, mas poucas vezes se conecta com a proeza do que isso significa, da magnitude do fato de ter passado mais um ano sem morrer.
Me intriga pensar que a única certeza que temos é a morte e, ainda assim, vivemos nossa vida como se a eternidade fosse garantida. Passamos, ano após ano, acreditando que este ano não vamos morrer mais uma vez. Que ainda somos jovens. Que temos uma vida inteira pela frente. E como muitas vezes é isso que acontece, a crença vai sendo reforçada.
Encarar a finitude é para os fortes. Ser lembrando de que nada está garantido pode ser maravilhoso, mas pode ser um pesadelo sem fim. Ter atravessado por um episódio depressivo e experimentado esse exercício de olhar para frente e só conseguir identificar desgraça na linha do horizonte foi saber que nem sempre damos conta deste pensamento.
A vida é hoje. E eu fico aqui me repetindo, não sei se você notou. E não é porque eu não saiba falar de outra coisa, mas porque eu sei que essa é a coisa mais importante. O que você faz com o seu tempo é o que vale. É o que vai contar quando seu último dia chegar. Mas preferimos não pensar. Desejamos saúde e muitos anos de vida, isso quando desejamos saúde, pois quando somos crianças, adolescentes ou jovens adultos, desejar saúde se parece tão sem sentido, coisa de velho. Que saúde o quê! Como acontece com o desejo da paz. Tão genérico. Aí você vive em um mundo em guerra e percebe a guerra dentro de você, da sua casa, no seu trabalho, no condomínio do prédio e se sente velha e se entrega e passa a desejar paz.
Queremos só coisas boas, mantemos essa outra ilusão enquanto podemos, tentando nos enganar de que metade da vida é desafio. Para alguns, o desafio é a vida toda, aliás. Também penso muito sobre isso. Sobre os privilégios, mas não apenas aqueles mais óbvios, como gênero, cor de pele e classe social. Penso em como a vida poupa alguns e exige tanto de outros. E aí, aí preciso me agarrar a algum pensamento espiritual, não para justificar, pois acho que nenhum sofrimento deveria ser justificável, mas para não enlouquecer, sentindo dentro de mim toda a dor do mundo que transpassa a minha pele, vai entender.
Talvez este não seja o texto comemorativo de aniversário que você esperava. Confesso que não era o que eu esperava também. Mas penso que é o que faz a vida ter sentido no final do dia. É saber que apesar de toda dor e sofrimento que vivi, que vi e que sei que existe, eu resisto. Eu consigo ver beleza na florzinha que nasce no meio da parede de pedra, consigo pensar sobre o tempo registrando a decomposição do passarinho que morreu no meio do meu caminho, sou capaz de produzir algum sentido com as doenças que me aconteceram e tenho um dom que considero o mais importante, sou boa em criar e manter laços afetivos e, com isso, sou amada e abraçada e ganho mensagens carinhosas no meu aniversário.
Agradeço imensamente à existência, ao espírito ou ao acaso, mas o fato é que completei quarenta anos e adentro este novo ano alimentando a esperança de não morrer mais uma vez. Observando muitas histórias no meu entorno, e também histórias que me contam, vejo o poder gigante de uma coisa tão simples: o desejo de viver. Não quero soar mística, longe de mim, mas a verdade é que este desejo, quando nasce do fundo do coração, te faz adotar boas ações para continuar vivendo. Experimentar, descobrir, vivenciar, amar, curtir, explorar. Sentimentos que te fazem sair da mesmice, que te jogam em experiências loucas como casar, ter filhos, viajar, começar uma nova carreira aos quarenta, aos cinquenta, ou aos setenta, como minha amiga Jamile, me mostrando que a alma pode não envelhecer, é sempre uma questão de escolha.
Não é sobre se iludir, é sobre não querer parar. E se motivar pelo próximo projeto, pela próxima aventura, pela casa em obras, pela sede de conhecimento que te leva a abrir um novo livro ou se matricular em uma nova faculdade, como minha amiga Kat fez. É o desejo que move montanhas, como falam. É parar por cinco minutos a cada dia, meditar na esperança de ir adentrando mais e mais essa alma. É sobre escrever essas palavras sem saber se farão sentido, mas esperando que te lembrem de honrar a sua existência também.
Não é só sobre completar mais um ano de vida, é sobre estar vivo em pleno século vinte e um. É o que te faz acordar cedo e acreditar que, mesmo com crise climática, podemos mudar nossos hábitos, podemos expandir nossos corações, tanto, tanto, até encostar nos corações dos homens brancos cheios de traumas que precisam mostrar seu poder sobre os outros tentando dominar o planeta.
Quarenta anos é tempo pra caramba. É um espaço de três vidas na minha percepção de tempo. E penso na minha sogra, em seus mais de oitenta, mais do que o dobro das minhas três vidas, e um mundo outro que a gente mal consegue imaginar. E sonho com meus cabelos brancos, minhas rugas e a pele flácida que apenas te lembra: você continua não morrendo. Sonho com essas outras várias vidas que me esperam, e as angústias, mas também as conquistas, e as pessoas que irão, mas também aquelas que virão e o tempo que será sempre uma obsessão, junto com a morte, e com a vida, claro, como você pode perceber.
E termino aqui, sempre um pouco insegura em colocar um ponto final (a gente sempre quer um pouquinho mais, não é mesmo?), mas sabendo que há sempre um fim. Há sempre um ciclo se encerrando. Há sempre a necessidade de agradecer o que foi e simplesmente se colocar em uma postura de abertura para tudo o que está por vir.
De fora para dentro
Desde que o Jaya me apresentou o canal de vídeos com depoimentos de Alan Watts, filósofo e escritor britânico, não consigo parar de ouvir. Para meus quarenta, escolhi este, que fala sobre a postura de abertura para receber o que o universo deseja te enviar.
Sobre o tema da morte, este texto emocionante e bonito da Carolina Bataier.
Minha amiga querida Andreza de Lucena, que está recomeçando e escrevendo poesias ainda mais potentes.
E para encerrar, o Rodrigovk também completa quarenta anos e se propôs a escrever quarenta ensaios. Estou adorando todos e escolhi Várias vidas com a mesma pessoa e seu ponto de vista sobre diagnósticos para compartilhar aqui.
Obrigada por chegar até aqui 🌻
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que texto mais lindo, amiga tão querida! uma honra e uma alegria poder celebrar contigo estas quatro décadas, três vidas e um desejo: continuar a não morrer. seguimos juntas nesta postura de abertura, de brilho no olho e peito expandido para o que ainda há de vir ✨
Parabéns Bruna! Pelo texto e pelas 40 décadas! Desejo muita vida pra você!! Obrigada por partilhar esse texto 😊🤎