Verdades mutáveis
Ele não morde.
Foi o que escutei depois de levar uma mordida no joelho. Eu devia ter uns vinte e poucos anos, estava há um quarteirão de casa, subindo por uma calçada estreita quando cruzei com uma mulher e seu poodle. Fiz um movimento de passar pela rua, mas ela insistiu que não seria necessário, pois seu cachorrinho não mordia.
Segui pela calçada enquanto a criatura latia desesperadamente, na contramão da afirmação da tutora. Ao chegar mais perto, levei uma bela dentada no joelho. Estava de jeans e a calça não rasgou, mas a força com que o cachorro veio em direção ao meu joelho deixou um roxo que pude ver quando cheguei em casa.
Na hora disse a ela que tinha levado uma mordida, e ela continuava insistindo que seu cachorro não mordia. Falei novamente e, mesmo contra os fatos, ela continuava afirmando como um mantra que ele não mordia. Talvez fosse apenas esperança de que aquela verdade
não se desfizesse em sua frente.
Na época, não gostava de cachorros. Hoje sou apaixonada e responsável pelas vidas da Bibi e da Tina. Sempre que alguém chega na porteira de casa as duas latem sem parar e, depois do que vivi, aprendi a dizer o que é o fato: até hoje elas nunca morderam ninguém.
Nos últimos tempos, experimentei uma vulnerabilidade que desconhecia. Um medo que me acomete assim que desperto, enquanto ainda habito este limiar entre o sono e a vigília. Não consigo saber exatamente a sua origem, mas sei elencar fatores importantes que devam estar fazendo morada no meu inconsciente.
Essa não era eu,
até que me tornei essa pessoa.

Ando pensando na dona do cachorrinho e no desejo de que nossas verdades permaneçam imutáveis. Em nosso desejo de nos apegar ao que queremos que permaneça para sempre. O que é até uma incoerência neste meu momento, pois o que eu mais quero é que este medo estranho desapareça. Mas só ele. Não quero que nada do que está bom mude. Não tenho estrutura emocional para nenhum desafio no momento.
Senti inveja da tal tutora. Mesmo presenciando a transformação da verdade bem na frente de seus olhos, ela continuava escolhendo não ver. Às vezes, gostaria também de evitar verdades mutantes. Às vezes, gostaria de viver na ignorância dos fatos, no país fantasioso em que tudo funciona, é bom e confortável.
Essa vulnerabilidade recente me fez compreender melhor as pessoas em meu entorno e ter solidariedade com pessoas que nem conheço, mas que agora descobri como se sentem. Preferia a minha verdade anterior: ser aquela pessoa que é otimista, corajosa e cheia de fé. Mas se até verdades mudam, por que comigo seria diferente?
De fora para dentro
O Ano do Macaco, livro sensível da Patti Smith que conversou com essa minha nova sensibilidade.
Pelo caminho, edição sensível da Luísa Kalil
A realidade nunca foi o problema, pra reler de tempos em tempos, do Cadu Lemos
Obrigada por chegar até aqui 🌻
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Puxa, estava lendo seus textos e me deparo com essa generosa menção! Muito obrigado por seguirmos juntos uma trilha de descobertas!
Muito bom, Bru!
Fico me perguntando o que acontece quando a pessoa nega àquilo que ela está vendo e se em algum momento passei por isso sem me dar conta.
O bom é ter essa capacidade de entender que tudo é impermanente e imprevisível, ainda que nos seja desafiador.
Fiquei curiosa com esse livro da Patti! Nunca tinha ouvido falar!