Fabricar sentido
O famoso "o que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você"
Aos 22 anos, meu pai foi diagnosticado com meastenia gravis, uma doença rara que causa fraqueza muscular devido a uma falha na comunicação entre nervos e músculos e não tem cura. 50 anos atrás, o médico que o atendeu lhe deu um prognóstico de 6 meses a 2 anos de vida. Meu pai conta que no início aquela informação o abalou muito, mas em determinado momento, ele se recompôs e decidiu então que viveria a vida da melhor forma possível. Continua vivo, peitando a doença e honrando o tempo que lhe é concedido.
Há alguns anos, quem recebeu o mesmo diagnóstico foi o irmão de uma minha amiga, também em uma idade jovem, também ficou sem chão. Seu prognóstico foi um pouco melhor no sentido de que não havia a palavra morte na sentença, mas ainda assim muito difícil de escutar: em alguns anos a previsão é que ele esteja em uma cadeira de rodas. Até hoje ele não lida bem com a doença e, consequentemente, com a vida que se apresenta, sem grandes ambições ou sonhos para o futuro.
Fiquei muito reflexiva ao conversar com essa amiga recentemente e observar como uma informação difícil, de um diagnóstico similar, possa ser encarada de formas tão distintas. E como realmente há algo que talvez a gente possa chamar de postura interna, que não muda os fatos, mas que, ao mesmo tempo, muda tudo.
Consigo me identificar com meu pai, pois vivi algo semelhante quando recebi o diagnóstico do câncer em 2019: enfrentei o processo desafiador com coragem e de peito aberto. E também consigo me identificar com o irmão da minha amiga pela forma como lidei quando recebi o mesmo diagnóstico em 2024, resistindo à realidade, sem o ímpeto de transformação que tive na primeira vez.

Aperto o botão de ligar o computador e, nos milissegundos de tela preta em que tudo inicia, observo o impulso de pegar o celular na mão. Me sento na mesa enquanto aguardo uma amiga, e surge a necessidade de checar se ela não mandou uma mensagem avisando que se atrasaria. Enquanto meu companheiro calça o tênis, tenho o tempo suficiente para verificar se chegou alguma nova newsletter na minha caixa de entrada. Já é tarde da noite, mas é começo do dia do outro lado do mundo, e, enquanto o Jaya procura um filme no streaming, entro no WhatsApp para saber se o cliente deu retorno sobre a mensagem que mandei pela manhã.
Foi assim que vivi 2025. Ocupando cada espaço de ócio com a tela do celular, do computador ou da televisão. Utilizando todos os momentos em que poderia sentir o que quer que fosse com uma camada de distração, lendo um livro, uma newsletter ou escutando um podcast, pois, afinal, eu sabia que havia poucos sentimentos agradáveis para emergirem à superfície.
Mas nos últimos dias do ano, consegui respirar. Consegui deixar pequenas pausas entre uma tarefa e outra. Consegui sair para passear com as cachorras sem fone nos meus ouvidos e ir experimentando ocupar os segundos da minha vida comigo mesma.
A vida não é linear. Eu já tinha aprendido que é possível cair no mesmo buraco de novo e de novo. Mas depois de construir uma vida que me acolhia tão bem, levar uma rasteira e ver tudo se desfazer de novo não foi fácil. A sensação de começar novamente, colocando as coisas em uma nova ordem, refletindo e escolhendo tudo outra vez, buscando um pouco de segurança e conforto me gera uma angústia ao pensar que tudo isso irá se desfazer novamente. Qual o propósito de refazer o castelo de cartas, se sabemos que ele vai despencar com a brisa?
Não sou mais a Bruna de 2019. Não sou mais a pessoa que tinha uma certa ingenuidade no olhar. Que conseguia ver a vida com um otimismo fantasioso e que romantizou, de certa forma, experiências que precisavam de um olhar mais maduro e honesto. Mas confesso que também não quero ser a Bruna de 2025, que encarou tudo com frieza, que perdeu as esperanças e sentiu um aperto no coração ao olhar para o futuro e refletir sobre o sentido de ter tantos anos pela frente.
Lá em 2019, quando estava cursando a pós-graduação em Cuidados Integrativos, a aula inaugural do curso foi sobre a pior doença que existe. Coincidência ou não, o professor desta aula era o dr. Acary, o médico que, posteriormente, apareceu e tratou meu pai. Ao apresentar diversas doenças e casos tão desafiadores com portadores de ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica, ele deu uma lição de vida para aquela turma de estudantes que ansiavam pelo novo aprendizado. No final, o professor doutor nos disse que a pior doença do mundo não era de fato uma doença, mas um estado de espírito. A pior doença era a desesperança.
Foi isso que senti, pela primeira vez, em 2025. Esse olhar vazio para o futuro. Esse medo de ter um tempo gigante pela frente que poderia ser ocupado exclusivamente com sofrimento e dificuldades. Reconhecia o fundo do poço, sabia que era preciso agir, mas não tinha ideia de como escalar outra vez. E, bom, há certos momentos em que tudo o que precisamos é de tempo e pessoas amorosas em nosso entorno.
Foi apenas no dia 31 de dezembro que, ao jogar Mahalila, um antigo jogo de tabuleiro indiano, que é também uma espécie de oráculo, com o querido terapeuta e amigo Elias Khadira, que percebi que a vida é esse movimento complexo e contínuo de subida e descida.
É difícil demais realizar que a impermanência irá levar tudo o que construímos e conquistamos de bom. Mas essa mesma impermanência é também o alívio de saber que nossa dor irá cessar em algum momento.
Em 2026, estou retomando tudo o que me faz bem. Colocando no todo dia o que realmente importa. Sendo guardiã das pausas e me utilizando das ferramentas que tenho para ir, aos poucos, levantando e reconstruindo mais uma vez.
Posfácio
Essa edição foi sendo escrita de uma forma diferente, em partes, como peças foram se encaixando no caminho, para me lembrar do que é possível se fazer na vida.
De fora para dentro
Recebi uma carinha da minha amiga secreta de newsletter que me ajudou a olhar para meu 2025 com novos olhos. Obrigada, querida Lívia Reis por este presente.
Fiquei muito impactada com o filme Hamnet, que conversa muito com essa edição e com a potência que reside na arte como ferramenta de produção de sentido. Se você assistiu ao filme, recomendo também ler essa matéria da BBC.
A Validação do Desejo, essa carta bonita da minha amiga Ana Margonato para abrir o ano.
Obrigada por chegar até aqui 🌻
De dentro para fora é uma newsletter gratuita sobre emoções que transbordam em texto. Para receber diretamente no seu e-mail, se inscreva abaixo.

Para mim, Bruna querida, mais difícil do que realizar que a impermanência irá levar tudo, acho que é realizar que a ela nos ajuda a perceber que nada do que realizamos ou construímos é inteiramente real. E que, apesar das realidades serem múltiplas e infinitas , somente uma realidade existe: o que fomos, somos e sempre seremos para além de Maya e sua natureza impermanente. A realização da dimensão da nossa verdadeira natureza é para mim, maior desafio. Honrar a vida e o tempo dessa consciência passageira, e ao mesmo tempo permanente, me assombra .
Que seu ano, assim como o meu e o de todos nós, possa ser de descortínio da beleza e do mistério que nos habita a cada um e a todos nós
Te amo e te honro. Obrigada por escrever e dividir belezas
Bruna, sentir a impermanência tem um misto de significados para mim. Me assusta e me encanta, sabe? Tem dias que me vejo ansiosa pelo excesso de futuro e a incapacidade de saber o que ele guarda. Tem dias que me vejo distraída e alegre de ver uma planta brotar onde antes tinha cimento. Seu texto tocou bastante aqui. E a frase do seu professor de que "a pior doença é a desesperança", abriu uma nova janela de reflexão para mim. Achei forte demais, e bem realista.
Bem, espero que em 2026 possamos viver a impermanência, sem deixar que o whatsapp ou as redes sociais nos roubem a presença.
Um abraço!