Leva tempo
Um (não tão breve) relato
O início de tudo
Há dez anos vivi a maior crise existencial da minha vida. Na verdade, 2016 foi o início: cisto no ovário, primeira cirurgia, espondilodiscite, pânico de voltar ao trabalho, reinfecção e, na virada de ano, a internação de quase duas semanas em que finalmente as coisas começaram a fazer sentido.
A história está registrada em detalhes no meu livro, Uma Oitava Acima, e aqui comento para trazer contexto para quem chegou há pouco. Para a edição de hoje, o importante é saber que desde então acabei me interessando muito por biografias que pudessem me dar um contexto desse processo de mudança. Ao escutar e ler muitos relatos, havia sempre um ponto em comum:
Daquele 2017 em diante, mudei muitas e muitas e muitas coisas na minha vida. Mudei de vida completamente: um novo relacionamento, uma nova casa, uma nova cidade e diversas formas distintas de trabalhar e existir neste mundo.
A recaída
Leva tempo e é preciso sustentar este novo eu.
Estava de corpo e alma nessa trilha até que 2025 me atropelou. Na verdade, começou em 2024, com o novo diagnóstico de câncer de mama, vivido com muito mais dificuldade e desafios, que desembocaram em um nebuloso 2025. Passei por muitos desafios nessa vida, mas, para mim, nada foi tão difícil quanto vivenciar um episódio depressivo no ano passado.
De alguma forma, vejo que essa visita à dor psíquica me tornou uma pessoa melhor. Hoje tenho ideia da magnitude, dos impactos e posso afirmar: se você não viveu ou não tem nenhuma questão de saúde mental importante, você não sabe o que isso significa. Mas acordar todos os dias com um medo descabido e não conseguir acreditar que o dia de amanhã pode ser melhor é simplesmente um pesadelo sem fim.
A crise te leva para um lugar escuro. O submundo é mesmo assustador e tantas vezes achamos que não seremos capazes de escalar de volta para a superfície. Esse processo foi muito impactante quando vivi pela primeira vez e é curioso como acreditamos que, depois da escalada, a queda nunca mais acontecerá.
A vida desandou de vez e, ao ter sido levada de volta ao fundo do poço, fui também catapultada para a versão de antes: a Bruna, publicitária e workaholic, que vivia no piloto automático.
Para o novo chegar (voltar?), é preciso deixar o velho ir.
Vivi o ano passado em luta e fuga. Pensando bem, o trabalho foi tanto a luta, com jornadas extenuantes somadas à baixa energia que chegou com a menopausa, quanto a fuga, como forma de não entrar em contato com a minha confusão interna e as emoções ruins. Mas, na virada do ano, senti uma mudança sutil na energia. Parece místico, eu sei, mas tente me acompanhar: o principal vale da depressão havia ficado para trás e os pequenos episódios de retorno aos dias escuros e desesperançosos eram cada vez mais raros.
Fui tomada por um otimismo que sempre me acompanhou e, de alguma forma, o desejo de viver, criar e me reapropriar de mim mesma foi se reconstruindo.
Leva tempo.
Daquele fatídico 2016 para agora, muita coisa foi sendo construída. Profissionalmente, expandi imensamente meu campo de atuação: me tornei escritora e produtora cultural, descobrindo novos talentos e aprendendo a vender meu peixe. No último ano, tudo isso ficou dormente, mas seguiu crescendo de forma subterrânea, como as raízes.
Durante o período difícil, pude me conectar com a versão de antes que se forjou no foco e no controle, trazendo o chão que eu precisava sentir por debaixo dos meus pés. Mas assim que os dias ruins foram ficando para trás, foi renascendo o desejo de escrever mais, retomar os projetos culturais e escolher com consciência onde colocaria a minha energia.

A mudança estava no horizonte, mas como muitas vezes acontece, o difícil é ter coragem de largar o osso. E aí vem a magia de novo: do mesmo jeito que a vida trouxe, a vida levou.
Há dois meses, os trabalhos que me sustentaram neste último ano foram rompidos. E pouquíssimo depois, exatamente no dia em que completei quarenta anos, recebemos a liberação para captação de uma nova edição do Mundo Futura, um dos projetos que mais amei realizar nos últimos anos, e que estava há seis meses em aprovação.
Adoro olhar para trás e ver as peças se encaixando: troquei de terapeuta, passei a ler e mergulhar nos textos do Cadu Lemos que me trouxeram uma outra camada de consciência sobre a própria consciência, então vieram os vídeos do Alan Watts falando tudo o que eu precisava escutar para retomar a confiança. Me vi rodeada de amigas que estão vivendo seus próprios processos de transformação e foram acrescentando insights preciosos para a minha retomada.
Quem ainda vive na inconsciência parece caminhar com menos conflito. Agora quem já sabe de certas coisas, quando sai um pouquinho da linha, é logo corrigido (rindo de nervoso). Sinto como se tivesse realmente assinado um contrato: é essa a vida que você vai viver. Respira e volta para o prumo, mulher!
Isso é bonito de se escrever, mas é difícil pra caramba de colocar em prática. Abrir mão da segurança por uma confiança maior que você não sabe explicar, mas sente. Olhar para o futuro acreditando que o caminho a seguir é esse, por mais que tudo te leve a pensar que o ideal seria ir pela trilha ao lado. Reconhecer que, se você não escolher por bem, a vida vai dar um jeito de te colocar no lugar certo de novo.
E tudo isso pra que, exatamente?
É só isso. É tudo isso.
Hoje consigo perceber que desde que me conectei com esse universo da espiritualidade e do autoconhecimento, acreditava que um dia estaria imune ao sofrimento. E, ao mesmo tempo, tudo o que vivi lá entre 2016 e 2019 foi tão impactante que fiquei quase com uma crença de que a solução para meus problemas estaria sempre embaixo de um padrão mental ou trauma emocional que, uma vez descoberto, me libertaria da prisão.
Foi em um dos vídeos do Alan Watts (que, infelizmente, não me lembro qual) que consegui entender um pouco melhor que é tudo isso e apenas isso.
Essa tal transformação não é mágica, apesar de ser disruptiva. Ela é mais um alinhamento entre você e a sua alma. É tão importante, pois vai te trazer clareza e centramento, uma certa satisfação pessoal, mas não vai resolver seus problemas.
Ler livros, conversar com pessoas mais sábias, assistir a vídeos, fazer retiros, meditar vão te ajudar a entender a mente humana e a forma como o ego se constrói. E é uma forma de reconhecer os processos e fazer novas escolhas para sair de situações e histórias que não vão te acrescentar em nada, mas o que fica é uma vida igual à vida de antes.
As mesmas vinte e quatro horas, as mesmas dificuldades de lidar com um mundo em guerra, com uma digitalização desenfreada, radicalismos ideológicos, desentendimentos e tudo o que sei que acontece na sua vida também. Entender que nada irá mudar no sentido mais superficial de fugir do drama e dos conflitos é simplesmente o maior alívio de todos.
Mas se a ideia não é chegar a um lugar em que tudo está resolvido, pra que continuar persistindo?
A resposta é pessoal, claro. Mas para mim, isso significa fazer o melhor uso possível do meu precioso tempo. Não quero gastar minha energia vital com coisas que não irão fazer diferença quando, daqui a outra década, eu olhar pra trás. Não quero acordar todos os dias de manhã e fazer algo a que eu não consiga dar algum sentido.
Não tenha pressa, mas não se demore.
Leva tempo mesmo.
E eu só poderei te dizer se valeu a pena daqui a dez anos. Ou nunca, pois se estou seguindo em outra trilha e ainda não é possível ser Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo, acho que nunca saberei ao certo.
Cada caminho vai te trazer coisas boas e ruins: essa é a natureza da vida. Mas reconheço um sentimento no meu coração que diz: é por ali.
E se não há uma linha de chegada, então não há pressa e não existe a necessidade de uma ambição desenfreada. A única coisa que existe é viver esse tal caminho, como tantas pessoas já disseram e repito aqui.
Estar perto de pessoas que também decidiram viver com a alma ajuda. Usar todas as ferramentas para notar quando seu ego quer te desviar do caminho ajuda. Observar a mente ajuda. Respirar fundo ajuda.
Ao invés de duvidar, descanse, compartilhou minha amiga Ana Margonato em um texto bonito que ressoou tanto em mim. Sustentar o processo é desafiador pra caramba. É complexo, pois você está a favor da correnteza da vida, mas está contra a correnteza da sociedade, o que provavelmente vai sempre gerar certa angústia. Mas é o que eu quero-preciso-desejo-ou-tenho-que-fazer-agora. Vai entender.
De fora para dentro
Leva tempo, o texto que publiquei em outubro de 2023 e que chegou de volta pra mim na hora certa, através de um comentário inusitado da Marina Caume.
O que tenho aprendido sobre o Tempo, da querida Carla Gameiro Dias que acaba de iniciar sua newsletter por aqui
Os dias são longos e os anos são curtos, da Clara Esteves
Terapia em dia, do Rodrigo Padrini
A coragem de existir e dizer sim à vida com Viviane Mosé, episódio maravilhoso do Mamilos Podcast
Como nossas mães
Nessa edição escolhi compartilhar o texto da Mabidix, essa menina-moça que é pura luz, sensibilidade, autenticidade, criatividade e amor.
Obrigada por chegar até aqui 🌻 (Ufa, hoje a edição foi longa)
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Parei em várias partes do texto. Parei na parte em que vc falou de um momento em que achou que, se descobrisse/curasse um trauma, estaria resolvido. Também já pensei assim. Vivia “me curando” dos traumas e me perguntando se, um dia, estaria curada de vez. Então, ouvi um podcast com um especialista em trauma famoso que falou exatamente o que eu estava começando a achar: ele ainda se trabalhava todos os dias e que as situações mais graves fazem parte de nós e não desaparecerão. Não há cura definitiva. Mas a gente melhora com a consciência e com o trabalho interno. Ufa. Então, hoje, aprendo a respirar e receber com paciência e consciência as emoções que sei q são lá de trás, da minha história. Sem ficar procurando a linha de chegada. Acho que isso ressoa com o que vc escreveu tão lindamente 🙌🏻🙏🏻 Obrigada!
Eu sempre faço birra diante do desconforto da mudança, é ótimo! Eecomendo. kkk Um abraço!